Como transformar um retrato em desenho.

Por: Bianca Nazari - 26/06/2020
Coluna

 

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Oi! Meu nome é Bianca Nazari e eu sou ilustradora freelancer e produtora de conteúdo na internet, atualmente morando em São Paulo.

Sempre amei desenhar, desde criança. Quando era mais nova, gostava de copiar os desenhos da Disney que eu mais gostava. Colocava o vídeo no VCR (é, faz um tempo) e pausava o desenho para poder copiar a pose e o rosto da personagem. Sem saber estava treinando para fazer o que faço hoje (aliás, é um ótimo treino esse, com um tempo pré-determinado, tentar copiar o que se vê na tela).

 

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De tanto copiar desenhos que eu via eu comecei a ficar boa em fazer isso. Mas copiar desenho é uma coisa: as linhas já estão lá, bem delimitadas. Copiar de uma foto de uma pessoa é outra coisa, pois no mundo real não existem linhas! Como traduzir o que eu via para o papel em forma de desenho? Desenhar fotos mantendo as pessoas reconhecíveis era bastante difícil. Os rostos reais, os objetos, tudo que existe no nosso mundo, é percebido através da luz e dos contrastes que cria com o ambiente em que está inserido. O limite entre o que se enxerga do rosto de uma pessoa contrastado com o fundo é o que normalmente se traduz em linha. Cabia a mim descobrir quais eram os limites possíveis que eu poderia encontrar no papel que manteria as características das pessoas ainda reconhecíveis.

 

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Alguns anos depois, com estudos, cursos e muita – MUITA – prática, hoje posso dizer que consigo fazer isso com mais facilidade. Mas ainda não é fácil! O conteúdo dessa coluna que escrevo hoje é contando sobre o meu processo ao estilizar um retrato de uma pessoa e transformar isso em desenho. Muitos chamam isso de caricatura...eu costumo evitar esse termo pois, apesar de correto, ele me remete muito à caricatura jornalística, onde o artista exagera muito as feições da pessoa retratada. Se eu estiver retratando alguém de algum seriado ou algum filme que gosto ou se for alguma celebridade, caracterizo como fanart. Se não, um retrato estilizado, talvez? Enfim, chame como quiser!

 

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Vou utilizar alguns desenhos meus para exemplificar as dicas. Começando por o desenho que fiz para a hashtag “Six Fanarts”. O desafio consistia em pedir às pessoas que falassem celebridades ou personagens, e desses eu poderia escolher seis para desenhar do jeito que quisesse, num layout pré-estabelecido com seis retângulos, um para cada personagem. Escolhi esses seis: Iza (cantora), Joey Tribianni (personagem de “Friends”), Rosa Diaz (personagem de “Brooklin 99”), Geralt de Rívia (protagonista dos jogos “The Witcher”), Dr. Dráuzio Varella (médico e divulgador científico) e Babu (ator, participante do BBB20).

 

Eu sempre começo pegando referências. De alguns é mais fácil, acho uma foto que, para mim, traduz a essência daquilo que quero passar com aquele retrato. Com o Dr. Dráuzio e com o Babu foi assim: bati o olho nessa foto e falei “aí tem tudo que preciso”. Com outras pode ser mais complicado, como foi o caso do Geralt. Eu queria uma pose imponente, mas sem tanta incidência de sombras. Não achei uma referência direta, eu iria ter que criar uma pose gerada a partir de várias imagens. Para isso, precisei de várias imagens para entender como funcionava a estrutura do rosto e quais eram os exemplos de armaduras que eu poderia usar de base.

 

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Escolher uma boa referência é uma das partes mais importantes do processo! A foto tem que estar com uma boa iluminação, que ajude a reconhecer as feições da pessoa e que passe a mensagem certa. Por exemplo, a Rosa Diaz é uma personagem conhecida por ter uma personalidade séria, até intimidadora. Eu poderia achar uma boa foto da personagem, mas se ela estiver sorrindo não vai passar a mensagem correta. Um retrato é uma personificação da pessoa em apenas uma imagem. Quanto mais elementos que lembrem a pessoa retratada e que faça o público a reconhecer, melhor.

 

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Então para começar eu monto esse arquivo cheio de fotos para me basear. Costumo trabalhar no computador, no Photoshop. Aí, para facilitar, abro outro arquivo onde vou desenhar e deixo os dois lado a lado. Assim posso ver sem muito esforço a referência. Importante dizer que se você é um artista que não desenha digitalmente, tudo bem! Você pode abrir a referência no celular e desenhar no papel, funciona da mesma forma.

 

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Com as referências ali do lado, começo com os formatos gerais, com traços bem soltos e sem muita precisão. Hoje em dia não faço muita estrutura pois já tenho ela na minha cabeça, mas antes eu fazia bastante, aqueles traços guias e formatos como círculos para delimitar a cabeça e os membros. Se te ajuda, comece com eles e vá lapidando dali.

A próxima coisa que faço é olhar bem a foto e tentar extrair dali o que mais chama a atenção na pessoa. Quais feições eu consigo exagerar sem perder a verossimilhança? Normalmente os que eu sempre exagero são os olhos. Gosto de desenhá-los maiores do que realmente são, acho que traz um humor e um ar de “cartoon”. Mas se a pessoa tem olhos muito pequenos, o exagero viria de deixá-los menores.

No caso da Rosa, por exemplo, ela tem alguns traços exageráveis: um rosto bem anguloso, o “v” no lábio superior, a sobrancelha arqueada, os olhos que tem quase uma reta na pálpebra superior e a franja na testa. São essas as características que eu tenho que preservar e/ou exagerar se eu quero que as pessoas a reconheçam como Rosa Diaz.

 

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Outra coisa importante a se observar seriam os espaçamentos. Se a boca é próxima do nariz, tenho que manter ela próxima ao nariz. Posso encurtar essa distância, mas nunca aumentar, senão causa um estranhamento e eu mexo demais na feição. O nariz da Rosa é bem alongado, então, de novo, mantenho isso. Mesmo se eu mantiver o desenho do nariz dela, mas locá-lo muito próximo aos olhos, vou estar alterando a feição, então presto atenção nisso. Outras coisas que posso forçar: a voltinha do cabelo e as maçãs proeminentes do rosto. Pronto!

No caso do Joey, podemos observar algo que pode ajudar na estilização dos retratos: a simplificação de formas. Olhe o formato da cabeça dele. O formato real é cheio de quebras e ângulos, mas se forçarmos a simplificação a silhueta fica mais clara e mais “estilizada”. Brinque com isso até achar algo que funcione para o retrato que você está criando.

 

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Na foto do Babu achei que os olhinhos dele, apesar de abertos, são semicerrados, com as pálpebras unidas. Então decidi que iria desenhá-los como se estivessem fechados, num traço único.

 

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Com o Dr. Dráuzio, a característica que mais pulou aos meus olhos eram os ombros largos e a expressão de “bonzinho”. Consegui isso exagerando os ombros e deixando os olhos em “meia lua”, risonhos. Todos os outros personagens eu fiz com olhos grandes, mas o Dr. Dráuzio, que tem olhos pequenos na realidade, eu desenhei com olhos de tamanho próximo ao real. O contraste entre os personagens faz a gente achar que os olhos do Dr. Dráuzio sejam pequenininhos.

 

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Ainda na foto do Joey podemos falar sobre espaço negativo. Certifique-se de preservar a proporção e os espaçamentos na silhueta e, para isso, em vez de olhar a figura do personagem, olhe o espaço que ela cria na parte externa. Isso pode te ajudar a enxergar e “medir com os olhos” as distâncias entre orelha e ombro, tamanho da testa, etc. Não precisa ficar igualzinho, mas tente não fazer completamente diferente para que a pessoa ainda fique reconhecível.

 

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Com o rascunho pronto, diminuí a opacidade e fiz a arte final por cima. A arte final é o ato de passar as linhas finais para o desenho, linhas mais fortes, com mais peso, assertivas. É bem difícil ter destreza para fazer arte final, mas isso vem com a experiência. A dica que posso dar aqui é tentar fazer linhas rápidas e com pressão diferente para variar a espessura de linha e deixar um desenho mais fluido. Isso tanto no papel, quanto digitalmente.

 

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Depois foi a hora de colorir. Faço cores base, escolho os tons que quero para cada local e adiciono um blush nas bochechas (dá uma saúde), as sombras e luzes logo em seguida. Queria um fundo colorido para cada personagem, então escolhi de acordo com o “clima” da reação da pessoa ou de acordo com o contraste com as cores que já havia escolhido para o personagem. Geralt ganhou um fundo mais escuro por ser mais “sombrio”, enquanto o Babu recebeu um azulzinho pastel, mais calmo, e que contrasta bem com o dourado da coroa e com a tonalidade da pele dele.

 

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No final eu ajusto as cores com o color balance e, se achar que preciso melhorar a feição de alguém que fugiu um pouco do rascunho depois de pintado, eu faço isso com a ferramenta “liquify”. Se você estiver trabalhando no papel não vai conseguir ajustar no final, então tome seu tempo em cada etapa para se certificar que está parecido com a pessoa que você está retratando, principalmente na hora de pintar!

 

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As primeiras vezes que você tentar vai sentir uma dificuldade enorme, mas quanto mais vezes você fizer, quanto mais estudar e analisar bem as fotos e os rostos das pessoas você vai ver que vai ficando cada vez mais fácil. Se puder passar outra dica, não pense em “estilo” logo de cara. O estilo é uma coisa que vem naturalmente, sem forçar. Tente se ater a traduzir as fotos de pessoas em linhas do seu jeito e já será um belo caminho andado. E não desista! É um processo que todos passam.

Espero que tenha ajudado! Treine bastante para poder fazer fanarts dos seus filmes e séries favoritos.

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E me siga no instagram @biancanazari para ver outros desenhos meus! Até a próxima ?

 

Oi! Meu nome é Bianca Nazari e eu sou ilustradora freelancer e produtora de conteúdo na internet, atualmente morando em São Paulo.



Comentários:

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Bruno Medeiros 26/06/2020 12:33:26

Excelentes dicas! Adorei a de simplificação dos shapes. Vou passar a fazer isso mais vezes haha Muito obrigado, Bianca! :D