Ilustração Infantil - O desafio mais divertido

Por: • Daniel Wu • - 16/04/2018

Tem gente que acha que desenhar para crianças é mais fácil. Quando mostro meus desenhos muita gente fala “ah… legal” e já pulam pros meus amigos que fazem realista e fantasy. Tudo bem, porque quero mesmo prender atenção é de criança.

Na real, as dificuldades são outras. Você já tentou se comunicar com uma criança? Não só chamar a atenção dela se fingindo de louco, mas sim acessar seu universo. Um universo do qual nós já nos distanciamos há muito. E o que fazer quando chega lá?


Para isso, precisamos nos preocupar com muitas coisas. Tantas que se eu fosse abordar aqui, sequer a atenção de vocês eu conseguiria prender. Então vou falar só sobre duas que considero muito importantes:

- contar a história através dos desenhos (e ir além): Narrativa visual sempre é importante mas para as crianças ela é essencial, não pode fraquejar. É pelas imagens que os pequenos são atraídos e absorvem a história. Para prender a atenção desses clientes, você vai ter que rebolar. Se seus desenhos só acompanharem o que o texto narra, seu livro vai parar atrás do sofá por alguns meses. Se o texto for bom, você precisa amplificar sua potência; se for ruim, você precisa salvar essa história. A boa ilustração infantil não só define o universo onde a história se passa (que já precisa ser maravilhoso) mas também o expande. Às vezes, até o inverte. O que você pode agregar visualmente a essa história? O que não está descrito mas seria legal que existisse ou acontecesse nessa cena? Que sentimento quer intensificar? Seja criativo, se empolgue! Você pode definir UM-UNIVERSO-INTEIRO!! Mergulhe na história e explore toda imensidão que ela te oferece! Descarte as primeiras ideias e extraia tudo que sua criatividade permitir. O texto é o bote lá na superfície - ele te guia, fique de olho, não se afaste demais, mas não deixe que ele te impeça de vasculhar os corais.


- a mensagem que escolhemos passar: Claro que livros moralistas são um porre. Criança quer é se divertir (não só elas, aliás). Mas muito se engana o ilustrador que acha que pode se eximir de qualquer valor moral e ético quando se comunica com crianças. Mesmo se o texto não visar um conteúdo claramente pedagógico, a simples escolha de etnias, roupas, gestual, itens, gêneros, ambientação etc. já está carregada de significados. Não é só sobre a já bem discutida representatividade negra ou protagonistmo feminino, mas sobre diversidade no geral. Para que repetir um padrão? Para que fazer um personagem que já foi visto dezenas de vezes? Por que não apresentar para a criança o mundo com toda a sua riqueza de diversidade e festejar isso? Você é responsável por isso, goste ou não, então acho importante estar consciente deste processo. Leia, se informe, converse. Ao mesmo tempo que dialogar com crianças é muito divertido, é uma grande responsabilidade que eu, particularmente, adoro assumir. É sempre bom quando se consegue passar valores interessantes, mas lembre-se: é preciso manter clara a linha que separa um livro que as crianças querem ler de um livro que os pais querem que elas leiam. Tem que ser legal. O bom autor/ilustrador é aquele que alcança esse equilíbrio.


Um exercício legal que faço bastante é pegar uma fábula ou conto de fadas e fazer uma única ilustração para ele. Como você resumiria essa história? Qual é a cena que mais a representa (sem spoilers, claro)? No que você pode inovar nos personagens, cenário, ambientalização, etc.?


E, principalmente: não subestime as crianças. Elas percebem e detestam. Elas são exigentes, percebem as sutilezas, são questionadoras, surpreendentes, estão formando sua concepção de mundo e você só tem um momento fugaz para falar com elas. O que você quer contar? Que mensagens você quer passar para que essa nova geração seja melhor que a nossa? E, principalmente, como fazer isso divertindo-a? Esse é o nosso papel, o desafio que escolhemos. E é uma delícia.

Vídeos inspiradores




Gosto muito deste vídeo porque nele a escritora Chimamanda Ngozi Adichie consegue explicar de forma muito direta e suscinta a importância da representatividade na literatura.


Aqui, são os ilustradores Will Terry e Tyrus Goshay explorando mais o assunto da diversidade e representatividade nas obras. Aliás, sugiro o canal do Will Terry porque tem bastante coisa legal sobre o mercado editorial. Mesmo que do ponto de vista estadunidense, dá pra pegar umas dicas lá.


Neste, Eva Furnari (rainha) conta como é o processo criativo dela, que resulta em obras que, mesmo sem intenção consciente, auxiliam o processo pedagógico no país inteiro.


Outro dos meus ilustradores/autores prediletos - Odilon Moraes - falando rapidinho sobre a questão da imagem narrativa, assunto que ele manja MUITO.


E aqui, uma autopromoção sem vergonha mesmo: um papo bem legal que tive com o pessoal lindo do Iconic onde falo mais sobre minha área de atuação. Aliás, o Iconicast traz uns convidados de diversas áreas da ilustração, sempre com pontos de vista e vivências bem interessantes! Vale ouvir!

Daniel Wu é paulistano, ilustrador, roteirista e fanático por chocolate e desenhos animados. Ilustra para campanhas de marketing, sites, revistas, didáticos, institucionais, games, animações e qualquer projeto que pareça divertido. Seus trabalhos são vendidos em lojas físicas e virtuais.



Comentários:

Para comentar você precisa estar logado.

yanna Amorim 18/04/2018 00:15:29

Eva s2

yanna Amorim 17/04/2018 23:54:01

os videos que escolheu, são realmente ótimos para dar uma injeção de ânimo . Suas ilustrações são inspiradoras. Eu gosto muito de desenhar para o público infantil. E não é tão simples quanto parece.

Livia Ximenes 17/04/2018 17:18:38

Parabéns suas ilustrações são maravilhosas e muito expressivas...

Renato Marsolla 17/04/2018 13:18:54

Muito bom!

Vanessa Ferreira 17/04/2018 09:45:31

Amei as referências sobre a importância da representatividade nas artes.